A HISTÓRIA DA RESERVA SERRA BONITA

por Vitor Osmar Becker, PhD

Olá!

Sou Vitor Osmar Becker, entomólogo e co-fundador da Reserva Serra Bonita e do Instituto Uiraçu. Compartilho com você a história da criação da Reserva e o que temos feito até o momento.

Clemira é uma educadora dedicada a causas sociais, políticas e ambientais. Criou, implementou e desenvolveu diversos projetos de educação e inclusão social, na Universidade de Brasília, onde trabalhou por cerca de 20 anos, tornando-a uma referência nacional em políticas educativas e de inclusão.

Quanto a mim, sou entomólogo e me dedico à taxonomia de Lepidoptera Neotropical. Ao longo de 30 anos de serviço público na EMBRAPA, colecionei, identifiquei e descrevi mais de 1 milhão de espécimes de lepidópteras do Novo Mundo, reunidas na Coleção Becker, que se tornou uma referência mundial neste campo da ciência.

Durante as férias escolares de nossos filhos, costumávamos viajar a lugares onde eu poderia coletar insetos. Vimos as florestas rapidamente desaparecendo e percebemos que não fazia sentido manter espécimes mortos em coleções, se nada fosse feito para preservá-los vivos para a posteridade. Assim, desde 1985, Clemira (minha esposa) e eu já considerávamos proteger uma área de mata, e decidimos que quando nossos filhos tivessem crescido e nós, aposentados, procuraríamos um lugar onde fosse necessária a proteção de habitat.

Em 1997 escolhemos a Serra Bonita, no município de Camacan, para criarmos uma Reserva Privada do Patrimônio Natural - RPPN, e em 1998, com recursos pessoais, iniciamos a aquisição de terras.

Com recursos de um parceiro, adquirimos também 1.500 árvores de um proprietário rural que as estava vendendo a madeireiros, sob a condição de que este não as cortasse. Entre elas, enormes jequitibás (espécie em extinção) centenários.

Em 2001 tínhamos adquirido 43 propriedades (cerca de 1.200 ha). Unificamos seus títulos e solicitamos ao IBAMA o registro da área como RPPN. No mesmo ano, nosso parceiro adquiriu três propriedades na Serra Bonita, umas delas contendo as árvores já mencionadas - cerca de 500 ha - e também solicitou ao IBAMA o registro das áreas como RPPN.

Em 2005, juntos tínhamos 1.700 ha sob proteção: a maior RPPN de propriedade de indivíduos no CCMA. Porém, já se haviam esgotado nossos recursos pessoais, e começamos a buscar apoio para expandir a Reserva.

Logo percebemos que a maior parte dos recursos disponíveis não podiam ser acessados por indivíduos, e que seria difícil estabelecermos parcerias formais com universidades e organizações de pesquisa. Assim, em 2001 criamos o Instituto Uiraçu, uma associação sem fins lucrativos, para nos possibilitar submeter projetos e pedidos de recursos, estabelecer parcerias para proteger a totalidade da Serra Bonita e conduzir e apoiar pesquisas científicas e educação ambiental para a proteçao da Mata Atlântica.

Aprendemos do zero como fazer funcionar uma ONG. Com o tempo, mais pessoas se uniram a nós, e tornou-se possível captar recursos e contratar pessoal.

Nos últimos anos, com fundos de doações e projetos, o Instituto adquiriu mais algumas propriedades, registradas em seu nome e emprocesso de reconhecimento como RPPN, para estender a proteção a mais aproximada-mente 1.000 ha.

O Instituto realiza pesquisas e monitoramento contínuo nessas áreas, e desenvolve várias atividades educativas junto à comunidade, em parceria com voluntários, o poder público e diversas universidades e organizações de pesquisa que desenvolvem estudos na Serra Bonita.

Essas atividades incluem visitas à Reserva, cursos, treinamentos, palestras, oficinas, atividades culturais, além da assistência à prefeitura Municipal na criação e gestão da Secretaria Municipal e dos Conselhos Municipais de Meio Ambiente e Educação Ambiental.

Desde a criação da RPPN, mais de 50 estudos de flora e fauna já foram concluídos ou estão em andamento, conduzidos por diversas organizações e universidades, em parceria com o Instituto Uiraçu, na Serra Bonita. Um deles é o inventário florístico conduzido pelo Jardim Botânico de Nova York em parceria com a Universidade Estadual de Santa Cruz. Este estudo já identificou mais de 1.000 espécies de plantas vasculares, sendo 15 novas para a ciência.

A organização Birdlife International definiu a Serra Bonita como uma Área de Relevante Interesse Ecológico, com mais de 300 espécies de aves, sendo 59 endêmicas, incluindo o recentemente descoberto, raro e ameaçado Acrobatornis fonsecai, ou graveteiro (à direita) e a criticamente ameaçada Cotinga maculata, ou crejoá.

Vinte novas espécies foram encontradas na Serra Bonita, incluindo duas espécies de sapos, uma cobra e dois lagartos.

Ainda há muito a se fazer. É muito difícil gerir uma ONG que depende de fundos de terceiros para funcionar. Por muitos anos, nossa família e muitos amigos vem desempenhando, como voluntários, um importante papel no esforço em proteger a Serra Bonita. No entanto, para a sustentabilidade da Reserva a longo prazo, precisamos profissionalizar e remunerar uma equipe permanente. Esta é nossa principais dificuldade, pois o projeto já se tornou grande demais para conduzirmos sozinhos.

Assim, continuamos em busca de parcerias para:

Para atingir esses objetivos, necessitamos alcançar a sustentabillidade a longo prazo da Reserva Serra Bonita, fortalecendo o Instituto Uiraçu. Você pode ajudar. Clemira e eu ficaremos felizes em receber sua mensagem ou receber sua visita, e em nome de nossos amigos animais e plantas da Serra Bonita, agradecemos seu interesse e apoio!

Nota: o Instituto Uiraçu tem como mascote a Harpia ou Gavião-Real (Harpia harpyija). Na língua Tupi, Uirá (ave) – Açu (grande), “a ave grande” é a maior ave de rapina do Novo Mundo, chegando a 2,2 m de envergadura de asas. Voa alto e tem visão aguda, e nos inspira a fazer o mesmo! Está praticamente extinta na Mata Atlântica, mas tem sido avistada na Reserva Serra Bonita. Uma família de Uiraçus reside aqui, e retornou para cá espontaneamente, sem nenhuma intervenção humana. O Uiraçu voltou para nós!